Eduardo Viveiros

Uma perda: Maurice Plas

COM A MORTE DO ALFAIATE & CHAPELEIRO, É O PONTO FINAL DA ANTIGA AUGUSTA

Maurice Plas era meu vizinho até ontem.
Maurice Plas morreu.

Aos quase 90 anos, o sr. Plas era a última grande referência de uma rua Augusta de antigamente, sobrevivendo entre puteiros e filas de jovens nas boates, mil novos prédios, hamburguerias gourmet e o trailer de cachorro quente que passa a madrugada quase à porta da sua loja.

O ponto, que completou seis décadas de funcionamento em 2014, foi sempre o mesmo: número 724 do tal Baixo Augusta, com duas vitrinas de madeira exibindo boinas e gravatas e páginas de revistas amareladas pelo sol, mais o nome manuscrito talhado também em madeira. Coladinho na Ropahrara, que ficou famosa por oferecer “roupas sensuais”. Decadence do lado da elegance.

Plas era figura certa na vizinhança, batendo ponto diariamente e observando a movimentação a partir da entrada da sua loja, sempre muito bem arrumado com suas boinas, suspensórios e óculos gigantes.

O francês filho de belgas chegou ao Brasil em 1951 e, depois de muito trabalhar com confecção no centro da cidade, abriu sua loja pensando primeiro em moda feminina - para as mulheres que levavam os maridos para trabalhar na ainda glamurosa região.

Só depois passaria a investir forte na alfaiataria masculina feita sob medida e, na década de 1970, é que Plas começaria a fazer no ateliê as boinas que se tornariam sua marca registrada - por conta de Tarcisio Meira, que filmava na época o filme O Marginal, dirigido por Carlos Manga, e do médico que exigiu que o francês protegesse a cabeça do sol paulistano.

A história do ator (e do doutor) era uma das muitas que Maurice gostava de contar de roteiro pronto a quem perguntasse. Entrar na Plas era tipo uma cápsula do tempo, de loja à moda antiga: profusão de chapéus, boinas e cartolas (porque não?), memorabílias, lembranças e cacarecos de outros tempos. Um lugar que nunca cedeu (nem precisou) às modernidades do varejo. 


Foto: Fernando Donasci/UOL

Depois de algumas décadas movimentando apenas a clientela de antigamente, Maurice se orgulhava em dizer que nos anos 2000 os mais jovens voltaram a gostar de chapéus e (re)descobriram sua loja cravada entre as baladas da Augusta recém-(re)descoberta.

Eu nunca tive cabeça de chapéu, mas era vizinho de Plas e passava diariamente por ali - invejando quem tinha e pensando que, mais dia menos dia, a loja acabaria virando um prédio de nome cretino. Gostava de observá-lo enquanto ele observava. Vez por outra nos cumprimentávamos, com a certeza de que tínhamos a mesma premonição.

Me mudei há duas semanas e ainda ontem, quando monsieur Plas já tinha morrido, mas antes de receber a notícia, eu passei por lá uma última vez depois de entregar as chaves do antigo apartamento, pensando que a loja era uma das poucas coisas de que sentiria falta.

Tomei um susto ao ver uma camisa estampada com frutas ultracoloridas na vitrine, algo que nunca havia reparado antes. Influência talvez do público hipster ou dos filhos do alfaiate, que já trabalhavam ao lado do pai e devem continuar tocando a loja-símbolo da cidade.

Novos tempos.

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Uma performance: Remova Antes de Usar

GRUPO QUESTIONA A MÁQUINA DA MODA DE DENTRO DA GALERIA DE ARTE

Muito se fala sobre a crueldade da indústria da moda - nos preços, na produção em massa, na falta de fair trade e no trabalho escravo. A revolta é fácil (no Facebook) quando uma Zara ou uma Marisa é pega terceirizando oficinas cheias de colombianos no Bom Retiro ou centenas morrem em incêndios em Bangladesh. Mas pouco se vai além das mídias sociais (que viram pó na primeira liquidação que aparece - você viu que a Forever 21 vai abrir um outlet?).

Um grupo de jovens, porém, está usando a linguagem da arte para discutir esses problemas através da performance Remova Antes de Usar, tentando trazer o assunto à tona via galerias - especificamente dentro da Movimenta, primeira mostra de performances montada pela Galeria Mezanino, em Pinheiros.


A performance na Mezanino: carga horária pesada.

Em sintonia com movimentos tipo Fashion Revolution, representado no Brasil por Fernanda Simon, que propõe o questionamento "Quem fez a minha roupa?", o grupo Ogiva quer abordar as péssimas (e excessivas) condições de trabalho, carga horária e produção da moda - mas não só, da produção capitalista em geral: o que está por trás da etiqueta que visto?

"O nome veio da história daquelas etiquetas que se encontra nas lojas, que dizem 'remova antes de usar'", conta Cacau Francisco, que faz parte do trio. "Afinal, o que é que você deve remover antes de comprar um produto de moda? Esse é o questionamento".


Cacau e os bastidores finalizados.

Estilista de Fortaleza, Cacau fez em 2013 um dos melhores desfiles dessa última geração da Casa de Criadores, em São Paulo, mas logo largou as passarelas para buscar outras formas de expressão - e tem se tornado aos poucos um nome forte no questionamento da nova moda, sendo cooptado logo pelo núcleo artístico da Premiére Vision para trabalhos pontuais dentro da feira de tecidos.

"Não estava atingindo as pessoas da forma que queria com desfiles. Não acredito mais em passarela, é muito mais do mesmo, as pessoas contam histórias muito vazias", conta, explicando como trocou o catwalk padrão pelo mondo performance.

Nessa nova fase, Cacau se reuniu ao casal Mario Filho e Marie Auip no grupo Ogiva, que se propõe a ações visuais de questionamentos políticos dentro da realidade social brasileira. E daí surgiu a Remova, montada pela primeira vez em maio: em pleno Dia do Trabalho, o trio ocupou os canteiros da Avenida Paulista bordando bastidores de tecido com números de carteira de trabalho e pedidos de socorro.

"Na Paulista nós conseguimos criar um diálogo, fazer as pessoas pensarem no assunto", conta. Além dos performers, o grupo colocou uma cadeira vazia com placa de "temos vagas" para ironizar a indústria e convidar os transeuntes a bordar ao seu lado.



O grupo em ação na Avenida Paulista.

Foi dali que surgiu o convite da Movimenta, com curadoria de Luanna Jimenes e Ivi Brasil, que acontece na Mezanino até 1º de agosto. Diariamente, entre 11h e 20h, o grupo (com a adesão de Natália Coehl) monta uma oficina de trabalho dentro da galeria, bordando os bastidores que são pregados na parede ao final da tarde, como em um magazine de fast fashion.



A performance rola em ritmo de produção de alta escala, com horários fixos e folgas apertadas, cenário tão comum nos ateliês - ainda mais com algo tão manual. "Escolhemos o bordado pelo lance afetivo na memória das pessoas, além de ser algo laboral que toma muito tempo", conta Cacau.

Diferentemente da performance original, o grupo não interage com o público. Ao contrário, usa máscaras de crochê, símbolo do anonimato do trabalhador que produz sua roupa barata (ou nem tanto) e você não vê - ou não quer ver.

Já pensou nisso?

##

A Movimenta#1 acontece até 1º de agosto, com intensa programação de quase 30 grupos e performers de vertentes diversas.
Veja a programação completa no site.

Galeria Mezanino
R. Cunha Gago, 208, Pinheiros, São Paulo - SP
www.galeriamezanino.com


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Uma estilista: Juliana Herc

COMO UM CHOQUE CULTURAL EM TÓQUIO FEZ UMA BAIANA ABRIR A PRIMEIRA LOJA EM LISBOA

Juliana Herc quer ser a nova marca brasileira de luxo a se prestar atenção. E começou de maneira ambiciosa & arriscada: abrindo as portas de uma megaloja no grande ponto de comércio do segmento em Lisboa, a Avenida da Liberdade, furando uma fila de espera de meses habitada pelas grandes marcas internacionais.

A loja da brasileira fica ao lado de outras 60 flagships a ocupar a larga avenida, construída pelo Marquês de Pombal há 250 anos e tida como a 10a. mais luxuosa do mundo, ao lado de Louis Vuitton, Zegna, Burberry e Prada.

Com inspiração no Palácio da Alvorada, o espaço impressiona. São dois pavimentos cobertos de carpetes crus, mármores do Irã e azulejos revestidos com folhas de ouro. Tudo para abrigar uma moda contida e quase clássica, com pequenas desconstruções e um bom trabalho de bordados.




“Há ainda uma imagem distorcida de como é o mercado no Brasil. Quero fazer as pessoas enxergarem que se consome esse tipo de produto, que não vendemos só caipirinha, biquíni e roupa colorida”, posiciona-se Juliana, em entrevista no ateliê da marca - que, diferente da primeira loja, fica em um bairro abastado do Porto, região de Portugal que tem tradição na indústria têxtil.



Juliana não renega as origens. Com feições latinas à Shakira, fala de maneira firme, sem perder muito do sotaque baiano. Mas cruzou um pinga-pinga de cidades antes de abrir as portas da primeira coleção. 

Saiu cedo de Salvador, aos 15, para ser atriz no Tablado de Maria Clara Machado no Rio de Janeiro. Só lá, depois de uma infância metida em tecidos mas sem saber nada de moda, foi estudar o assunto. “Tinha paixão, mas não tinha ideia de que havia uma parte criativa. Vim de um mundo onde quem faz roupa é a costureira, não o designer”, conta.

Do Rio a Lisboa e um primeiro estágio infrutífero na Espanha, Juliana aposentou o sonho até tomar um choque cultural ao morar em Tóquio, já casada com o marido empresário.

“Foi um choque, um período em que eu fiquei sem conseguir conviver com as pessoas. Coisas simples como ir ao supermercado, viver sem falar a língua deles, é tudo muito difícil. Fiquei uma semana trancada em casa, foi quando recomecei a criar”.



O conflito com os japoneses deu nessa etiqueta "made in Brasil”, porém produzida em Portugal, que foi cozinhada no ateliê por um ano, de olho mais no mercado daqui do que o de lá.

“Há ainda um preconceito de Portugal com o Brasil. Se eu quisesse atingir o público português, já não podia começar me intitulando como marca brasileira”, diz Juliana. “E isso eu faço questão”.

Mas e o mercado do Brasil?
A ideia inicial era abrir em São Paulo. Mas pensei “se abrir uma marca no Brasil, serei apenas mais uma marca brasileira abrindo”. Então São Paulo é um próximo passo, com a loja já estabelecida.

E você acha que existe espaço para uma marca brasileira, mas vinda de fora, ainda novata, com esse posicionamento de luxo?
Não sei. É um risco, mas aqui já tivemos uma boa aceitação logo nos primeiros dias, quando achava que não ia vender nada. Vendemos para chineses, portugueses e duas brasileiras - que não são minhas amigas!

A marca nasce de olho no alto movimento de turistas na capital portuguesa. Relatório recente sobre comércio de rua elaborado pela consultora imobiliária JLL mostra que os brasileiros estão no topo da lista de quem mais gasta no mercado de luxo lisboeta, ao lado de chineses, russos e angolanos: uma média de 871 euros por cabeça.

“Quero me esforçar para passar o que temos no Brasil, como o atendimento, por exemplo. Nós temos uma relação com o consumidor que não existe nas lojas da Europa”.



+ VEJA AS COLEÇÕES DE JULIANA NOS LOOKBOOKS

Sua influência estética vem de onde?
Não sei, tinha tudo para ser exatamente o contrário. Bahia é muita informação, muita cor, muito volume. Eu gosto do oposto, faço o que tenho vontade de consumir.

Essa imagem leve, dominada pela Dior dos 1950 e de Raf Simons (ao lado de Marilyn Monroe) no moodboard do ateliê, se dá bem nos cortes de alfaiataria e no uso de tecidos nobres, mas tem destaque especial é no trabalho manual - longe, porém, do barroquismo mineiro de festa.




O resultado são aplicações em cashmeres, bordados em redes de tule e uma série especialmente bonita, minimalista e com bordados de penas.

“Sou apaixonada por trabalho manual, aprendi crochê muito pequena”, diz Juliana, que vai fazendo um bacana trabalho de conscientização dentro do ateliê. “Essas meninas de hoje acham que costurar e bordar não e coisa de estilista. Estou ensinando a elas, fazendo pegar gosto”, orgulha-se.





Juliana Herc
www.julianaherc.com

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Uma marca: Ratier

SÃO PAULO GANHA NOVA MARCA MINIMALISTA BY RENATO RATIER



"É preto no preto, uma coisa que nem se enxerga direito", define Renato Ratier sobre a fachada de sua nova empreitada. O DJ & produtor, que revirou o cenário das casas noturnas em São Paulo ao abrir o D-Edge há quase 12 anos, volta a trabalhar com moda. 

Na Campo Grande onde começou, no Mato Grosso do Sul, lá nos anos 1990 do começo clubber, Renato chegou a ter duas marcas, além da loja Subculture. Agora, abre uma nova grife que carrega seu sobrenome na etiqueta.

Quem conhece a figura, sabe que Renato tem um estilo de vestir bem marcante. Não é de hoje que ele se mete dos pés à cabeça de preto e cinza, misturando influências de marcas internacionais no circuito de Rick Owens, japonistas e afins. "Não consigo encontrar nada no estilo no Brasil, era uma necessidade que eu tinha", diz ele, com fala calma e atenta.





A Ratier, que abre as portas em 17 de dezembro na alameda Lorena, mete os pés nesse contexto de maneira muito bem-vinda - atrás de um público conectado a uma moda dita vanguardista, que não tem uma loja que os represente no Brasil. Com foco nos rapazes, a primeira coleção tem 70% do mix no masculino.

Mas e esse público, existe?, pergunto.
"As marcas brasileiras não fazem porque não vende. Mas será que não deixam de vender por não fazer?"

Esperta - e moderna -, as peças da Ratier têm todas uma pegada unissex, atrás de meninos que não se importem em usar proproções fora do padrão. E realmente, tudo em preto (com pequenas concessões a cinzas e e crus).






"Estamos procurando a coisa mais bruta e mais orgânica possível, nos tecidos e na concepção da marca", define Renato, em visita à loja ainda desmontada, durante a produção do lookbook da primeira coleção, que ficou pronta em menos de quatro meses.

Em algodões e couro, lãs e linho, as peças seguem uma linha desconstruída, minimalista, sem excessos. Camisetas desabadas, vestidos de modelagem retorcida, tops com aplicação de látex, calças e jaquetas de couro, transparências e texturas.





Mas a abertura da Ratier é apenas o primeiro passo do novo complexo do empresário. O prédio ao lado, com estrutura brutalista desenhada pela dupla Marcelo Rosembaum e Muti Randolph, integra a loja de roupas a um espaço com inaguração prevista para o início de 2015 - incluindo bar, estúdio de música aberto a novas bandas, hotel boutique e o restaurante Bossa, que deve funcionar em esquema 24 horas a partir de março.



2015 deve ver também o braço de Ratier no Rio de Janeiro: um complexo de 2.800 m² na área do recuperado Porto Maravilha que vai abrigar, além de unidades da Ratier e do restaurante, um club à la D-Edge, galeria de arte, estúdio e livraria, além de espaço para a dança e outras mídias. "A ideia é conectar as artes, os públicos, todo mundo tem o que compartilhar".

Ambicioso? Um bocado. Mas Renato parece gostar da ideia. "Quando cheguei em Campo Grande, não tinha nada lá. Montei a loja, o clube, foi criada a situação. Aprendi a plantar no deserto", filosofa, rindo.

Ratier
Alameda Lorena, 2008, Jardins, São Paulo - SP
facebook.com/ratierclothing


 

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Um ícone: Pharrell Williams

COMO UM HOMEM DOMINOU UM ANO INTEIRO

2014, o ano que não acaba nunca, é o ano Pharrell Williams.

Do esquisito chapéu de montanhista ao grude de Happy, parece que o músico/produtor/estilista/empresário faz tudo certo, com as pessoas certas, na hora certa. Além de ser (ou parecer) um gentleman. Soar política e ecologicamente correto sem bancar cretino. E ter cabeça boa para chapéus, e os dentes mais brancos do showbizz.

Pharrell é a epítome do cool dos anos 2010, resumindo tudo o que o pop deveria ser hoje - e o que Kanye West adoraria ser, mas nem é.

Nas suas mil colaborações com moda, a nova é a parceria com a Adidas Originals, anunciada em março e revelada oficialmente nesta quinta-feira (18.09) - veja em primeira mão, abaixo.

O primeiro pacote (de uma longa parceria) tem versões de couro do agasalho clássico da marca alemã combinados com três cores do tênis Stan Smith. A coleção chega às lojas da marca do rapaz - Billionaire Boys Club - e online em 20 de setembro, mas não (por enquanto) no Brasil.




Em três cores, as jaquetas custam cerca de R$ 3 mil, enquanto os tênis ficam na faixa de R$ 455.






A Adidas é apenas a última de uma longa lista de parcerias que o rapaz acumula. Pharrel já criou joias, óculos para a Vuitton e a Moncler, perfume com a Comme des Garçons, linha de camisetas para a Uniqlo, além de suas marcas próprias, de roupas e tênis.

 

No começo de setembro, na semana de moda de Nova York, também apareceu ao lado da marca de jeans G-Star Raw para anunciar parceria com a Bionic Yarn - outra empresa sua, que recicla plástico retirado do oceano para confecção de tecidos ecorresponsáveis. A tecnologia também aparece na coleção com a Adidas.

Pharrell quer todo mundo, e todo mundo parece querer Pharrell. Mas porquê?



Ei, é raro acompanhar o nascimento de um ícone de estilo, ainda mais no mundo masculino. Pense no último que você viu aparecer. Kanye West, Luan Santana, Justin Bieber? Meteoros da paixão que se empacotam como perfeitos produtos.

Aos poucos, Williams vem ocupando um espaço que estava realmente vago. Ele não chegou agora, mas veio de mansinho - gosta de trabalhar nos bastidores. É um produtor musical, no final das contas. Em 23 anos de carreira (é!), já meteu o dedo na carreira de muita gente. Disco próprio, solo, são apenas dois. E só um deles conta de verdade.

Como rapper, ele tem street cred razoável. Mas circula também pelo alto luxo e por todas as vertentes do pop, já deu rasantes nas artes plásticas ao lado de Takashi Murakami e Marina Abramovic, passou pelo cinema e pelo design de móveis. Aos 40, é feito um Barack Obama só com a parte boa.



Como produtor musical que se preze, Pharrell foi experimentando aos poucos. E soube dar passos 1. calculados e 2. que aproveitassem o momento. Isso explica sua acensão messiânica em 2014.

Pense na primeira grande aparição do ano, em janeiro, no Grammy. Coajduvante da dupla Daft Punk, para quem produzira o álbum ganhador da noite, Pharrell apareceu com figurino bem distante do usual de red carpet: chapéu estapafúrdico, jaqueta esportiva vintage (aka velha), jeans mal-ajambrado e botas desamarradas. E, de longe, era a pessoa mais interessante da noite.



Fosse nos anos 1990, o figurino (que seria repetido no palco do Oscar) teria influência direta no guarda-roupa de muita gente. Mas é 2014, a informação é mais rápida e fragmentada, tudo se resume a uma hashtag e o segredo é ver até onde ela se espalha. O casaco deu na parceria que sai agora. Por sua vez, o chapéu dominou as redes sociais por meses a fio.
 


A cada aparição, uma emoção. Gigantesco e desproporcional, o chapéu de montanhista virou motivo de piada - até ser digerido e virar motivo de respeito. Em tempos de moda masculina sem grandes emoções no mainstream, é preciso ter muita auto-estima para sair com um acessório desses. E botou muito menino da geração Y para pensar em frente ao espelho.

O chapéu é um símbolo também que Pharrell não é bobo. Ele já aparecera com a peça anos antes, mas ali no Grammy era a estrela da noite. Hora de provar que estava pronto para tomar o trono, mostrando que sabie dosar a mistura de moda com cultura de rua.

Por mais esquisito que soe, a influência direta era de Vivienne Westwood. O chapéu faz parte da coleção de verão 1983 da estilista inglesa, uma época em que ela ainda produzia coisas interessantes.





Mas chegou a Pharrell via o marido de Vivienne, Malcom McLaren, que lançou na trilha do desfile o single (e hoje megaclássico) Buffalo Gals, cheio de chapéus de montaria na mala que levaria para Nova York.



Ao lado de McLaren na música, The World Famous Supreme Team, grupo de MCs da Nova York dos anos 1980, e a crew de dançarinos b-boys Rock Steady Crew, que aparece no vídeo e inspirou - de jaqueta & jeans - o look de Pharrell, 30 anos depois. Preste atenção.



Nada é à toa. Ícone que é ícone tem suas raízes. Pharrell não seria diferente.
É só um mero detalhe num plano de dominação mundial do ano que já durou dez.
Ele que aproveite enquanto pode (e pode, não pode?).


#menção honrosa

Atento aos trending topics da sua época, Pharrell também se esforça para se distanciar do passado chauvinista dos rappers e afins. Se declarou feminista (o status quo de 2014 ano, não sem razão), explicou seu disco GIRL como uma ode às mulheres e tem se caminhado nessa vontade.

As feministas hardcore reclamaram. Mas fato é que saiu dessa linha de pensamento, para o single Marilyn Monroe, uma das capas de disco (e imagens de moda) mais bonitas do ano.

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ONG lança app que acompanha casos de trabalho escravo na moda brasileira, mas consulta pede muita moderação

Assunto dos mais sérios, o uso de trabalho escravo na cadeia das confecções vem se tornando discussão recorrente na indústria da moda. Vários foram os casos divulgados pelos jornais nos últimos anos, envolvendo marcas locais ou grupos internacionais - principalmente desde o lançamento do Pacto Contra a Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo, assinado em 2009.

Mas apesar das discussões inflamadas via Facebook, poucos realmente se interessam pelo assunto ao ponto de transformá-los em um banco de dados atualizado. Daí que empresas acabam ganhando fama eterna de escravagista diante do público consumidor, mesmo depois de tomadas medidas sobre o assunto.

Pois uma das ONGs mais interessadas no assunto colocou na rede um aplicativo para celular que se propõe a acompanhar de perto esses casos - e orientar os consumidores na hora de fazer uma compra consciente. O Moda Livre, lançado nesta quarta-feira (11.12), é projeto da Repórter Brasil, coletivo de jornalistas, educadores e cientistas sociais coordenada por Leonardo Sakamoto.

Sakamoto é fonte-referência na discussão de trabalho escravo, direitos humanos e produção consciente - não necessariamente na indústria têxtil - e, não à toa, é um dos blogueiros mais compartilhados pelas redes sociais. Ao mesmo tempo, o site da ONG é uma das melhores e mais ferrenhas coberturas sobre o assunto dos "grilhões ocultos da elite brasileira", como dizem. Um trabalho respeitável.

Inicialmente bem-intencionado, o aplicativo é ideia interessante para consolidar um volume monumental de informações desencontradas. Para o lançamento, a equipe da Repórter Brasil elencou os dez mais da lista dos maiores varejistas do mercado e incluiu os principais casos flagrados pelo Ministério Público nos últimos anos.

Daí chegaram a um "top 22" que inclui os gigantes varejistas (Renner, Riachuelo, C&A) e as empresas do grupo Restoque  (Le Lis Blanc, Bo.Bô, John John), até a Zara (flagrado em 2011) e micromarcas como a Talita Kume, do Bom Retiro.

Cada empresa aparece no app, para consulta pública, sob um ranking de três posições - verde, vermelho e amarelo -, obtido via pontuação a partir da análise da situação da empresa perante a Justiça e um questionário enviado pela ONG.

Atualmente, a C&A é a única que ganha "sinal verde", por nunca ter sido autuada e manter sistema transparente sobre o assunto. Por outro lado a 775 ganha vermelho por não revelar aos clientes e à mídia se mantém trabalho escravo (depois de flagra em 2010) e quais providências toma sobre o assunto.

Mas, do jeito que é construído, o app pede muita moderação na consulta por conta dos critérios de avaliação do grupo. Tudo por que as empresas que não responderam ao questionário criado pela ONG - seja por falta de prazo, falta de interesse ou qualquer outro motivo - são jogadas na mesma vala das marcas infratoras.

Essa falta de filtro coloca, na mesma categoria, empresas sólidas como a Hering e nomes autuados como a rede Collins, aparentemente sem que a primeira tenha nada que a desabone. Se essa diferença é clara para quem acompanha de perto esses assuntos, acaba se tornando uma armadilha para a massa que não vai clicar para ler as letras miúdas do aplicativo.

Em tempos de demonização fácil pelo Facebook e reputações devoradas pela Internet, vale um pé atrás no aguardo do 2.0.

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