Eduardo Viveiros

Uma estilista: Juliana Herc

COMO UM CHOQUE CULTURAL EM TÓQUIO FEZ UMA BAIANA ABRIR A PRIMEIRA LOJA EM LISBOA

Juliana Herc quer ser a nova marca brasileira de luxo a se prestar atenção. E começou de maneira ambiciosa & arriscada: abrindo as portas de uma megaloja no grande ponto de comércio do segmento em Lisboa, a Avenida da Liberdade, furando uma fila de espera de meses habitada pelas grandes marcas internacionais.

A loja da brasileira fica ao lado de outras 60 flagships a ocupar a larga avenida, construída pelo Marquês de Pombal há 250 anos e tida como a 10a. mais luxuosa do mundo, ao lado de Louis Vuitton, Zegna, Burberry e Prada.

Com inspiração no Palácio da Alvorada, o espaço impressiona. São dois pavimentos cobertos de carpetes crus, mármores do Irã e azulejos revestidos com folhas de ouro. Tudo para abrigar uma moda contida e quase clássica, com pequenas desconstruções e um bom trabalho de bordados.




“Há ainda uma imagem distorcida de como é o mercado no Brasil. Quero fazer as pessoas enxergarem que se consome esse tipo de produto, que não vendemos só caipirinha, biquíni e roupa colorida”, posiciona-se Juliana, em entrevista no ateliê da marca - que, diferente da primeira loja, fica em um bairro abastado do Porto, região de Portugal que tem tradição na indústria têxtil.



Juliana não renega as origens. Com feições latinas à Shakira, fala de maneira firme, sem perder muito do sotaque baiano. Mas cruzou um pinga-pinga de cidades antes de abrir as portas da primeira coleção. 

Saiu cedo de Salvador, aos 15, para ser atriz no Tablado de Maria Clara Machado no Rio de Janeiro. Só lá, depois de uma infância metida em tecidos mas sem saber nada de moda, foi estudar o assunto. “Tinha paixão, mas não tinha ideia de que havia uma parte criativa. Vim de um mundo onde quem faz roupa é a costureira, não o designer”, conta.

Do Rio a Lisboa e um primeiro estágio infrutífero na Espanha, Juliana aposentou o sonho até tomar um choque cultural ao morar em Tóquio, já casada com o marido empresário.

“Foi um choque, um período em que eu fiquei sem conseguir conviver com as pessoas. Coisas simples como ir ao supermercado, viver sem falar a língua deles, é tudo muito difícil. Fiquei uma semana trancada em casa, foi quando recomecei a criar”.



O conflito com os japoneses deu nessa etiqueta "made in Brasil”, porém produzida em Portugal, que foi cozinhada no ateliê por um ano, de olho mais no mercado daqui do que o de lá.

“Há ainda um preconceito de Portugal com o Brasil. Se eu quisesse atingir o público português, já não podia começar me intitulando como marca brasileira”, diz Juliana. “E isso eu faço questão”.

Mas e o mercado do Brasil?
A ideia inicial era abrir em São Paulo. Mas pensei “se abrir uma marca no Brasil, serei apenas mais uma marca brasileira abrindo”. Então São Paulo é um próximo passo, com a loja já estabelecida.

E você acha que existe espaço para uma marca brasileira, mas vinda de fora, ainda novata, com esse posicionamento de luxo?
Não sei. É um risco, mas aqui já tivemos uma boa aceitação logo nos primeiros dias, quando achava que não ia vender nada. Vendemos para chineses, portugueses e duas brasileiras - que não são minhas amigas!

A marca nasce de olho no alto movimento de turistas na capital portuguesa. Relatório recente sobre comércio de rua elaborado pela consultora imobiliária JLL mostra que os brasileiros estão no topo da lista de quem mais gasta no mercado de luxo lisboeta, ao lado de chineses, russos e angolanos: uma média de 871 euros por cabeça.

“Quero me esforçar para passar o que temos no Brasil, como o atendimento, por exemplo. Nós temos uma relação com o consumidor que não existe nas lojas da Europa”.



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Sua influência estética vem de onde?
Não sei, tinha tudo para ser exatamente o contrário. Bahia é muita informação, muita cor, muito volume. Eu gosto do oposto, faço o que tenho vontade de consumir.

Essa imagem leve, dominada pela Dior dos 1950 e de Raf Simons (ao lado de Marilyn Monroe) no moodboard do ateliê, se dá bem nos cortes de alfaiataria e no uso de tecidos nobres, mas tem destaque especial é no trabalho manual - longe, porém, do barroquismo mineiro de festa.




O resultado são aplicações em cashmeres, bordados em redes de tule e uma série especialmente bonita, minimalista e com bordados de penas.

“Sou apaixonada por trabalho manual, aprendi crochê muito pequena”, diz Juliana, que vai fazendo um bacana trabalho de conscientização dentro do ateliê. “Essas meninas de hoje acham que costurar e bordar não e coisa de estilista. Estou ensinando a elas, fazendo pegar gosto”, orgulha-se.





Juliana Herc
www.julianaherc.com

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