Eduardo Viveiros

Uma performance: Remova Antes de Usar

GRUPO QUESTIONA A MÁQUINA DA MODA DE DENTRO DA GALERIA DE ARTE

Muito se fala sobre a crueldade da indústria da moda - nos preços, na produção em massa, na falta de fair trade e no trabalho escravo. A revolta é fácil (no Facebook) quando uma Zara ou uma Marisa é pega terceirizando oficinas cheias de colombianos no Bom Retiro ou centenas morrem em incêndios em Bangladesh. Mas pouco se vai além das mídias sociais (que viram pó na primeira liquidação que aparece - você viu que a Forever 21 vai abrir um outlet?).

Um grupo de jovens, porém, está usando a linguagem da arte para discutir esses problemas através da performance Remova Antes de Usar, tentando trazer o assunto à tona via galerias - especificamente dentro da Movimenta, primeira mostra de performances montada pela Galeria Mezanino, em Pinheiros.


A performance na Mezanino: carga horária pesada.

Em sintonia com movimentos tipo Fashion Revolution, representado no Brasil por Fernanda Simon, que propõe o questionamento "Quem fez a minha roupa?", o grupo Ogiva quer abordar as péssimas (e excessivas) condições de trabalho, carga horária e produção da moda - mas não só, da produção capitalista em geral: o que está por trás da etiqueta que visto?

"O nome veio da história daquelas etiquetas que se encontra nas lojas, que dizem 'remova antes de usar'", conta Cacau Francisco, que faz parte do trio. "Afinal, o que é que você deve remover antes de comprar um produto de moda? Esse é o questionamento".


Cacau e os bastidores finalizados.

Estilista de Fortaleza, Cacau fez em 2013 um dos melhores desfiles dessa última geração da Casa de Criadores, em São Paulo, mas logo largou as passarelas para buscar outras formas de expressão - e tem se tornado aos poucos um nome forte no questionamento da nova moda, sendo cooptado logo pelo núcleo artístico da Premiére Vision para trabalhos pontuais dentro da feira de tecidos.

"Não estava atingindo as pessoas da forma que queria com desfiles. Não acredito mais em passarela, é muito mais do mesmo, as pessoas contam histórias muito vazias", conta, explicando como trocou o catwalk padrão pelo mondo performance.

Nessa nova fase, Cacau se reuniu ao casal Mario Filho e Marie Auip no grupo Ogiva, que se propõe a ações visuais de questionamentos políticos dentro da realidade social brasileira. E daí surgiu a Remova, montada pela primeira vez em maio: em pleno Dia do Trabalho, o trio ocupou os canteiros da Avenida Paulista bordando bastidores de tecido com números de carteira de trabalho e pedidos de socorro.

"Na Paulista nós conseguimos criar um diálogo, fazer as pessoas pensarem no assunto", conta. Além dos performers, o grupo colocou uma cadeira vazia com placa de "temos vagas" para ironizar a indústria e convidar os transeuntes a bordar ao seu lado.



O grupo em ação na Avenida Paulista.

Foi dali que surgiu o convite da Movimenta, com curadoria de Luanna Jimenes e Ivi Brasil, que acontece na Mezanino até 1º de agosto. Diariamente, entre 11h e 20h, o grupo (com a adesão de Natália Coehl) monta uma oficina de trabalho dentro da galeria, bordando os bastidores que são pregados na parede ao final da tarde, como em um magazine de fast fashion.



A performance rola em ritmo de produção de alta escala, com horários fixos e folgas apertadas, cenário tão comum nos ateliês - ainda mais com algo tão manual. "Escolhemos o bordado pelo lance afetivo na memória das pessoas, além de ser algo laboral que toma muito tempo", conta Cacau.

Diferentemente da performance original, o grupo não interage com o público. Ao contrário, usa máscaras de crochê, símbolo do anonimato do trabalhador que produz sua roupa barata (ou nem tanto) e você não vê - ou não quer ver.

Já pensou nisso?

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A Movimenta#1 acontece até 1º de agosto, com intensa programação de quase 30 grupos e performers de vertentes diversas.
Veja a programação completa no site.

Galeria Mezanino
R. Cunha Gago, 208, Pinheiros, São Paulo - SP
www.galeriamezanino.com