Eduardo Viveiros

Tecidos do futuro, futuro dos tecidos - e uma coleção de moda no meio do caminho

Chove em Milão, sete graus de outono. E o Chic está bem ao lado do Duomo, a catedral que começou a ser construída lá no século 12, para discutir e aprender como será o futuro dos tecidos.

É aqui em Milão que a Procter & Gamble montou a primeira edição do seu Future Fabrics, seminário que reúne um time de peso para refletir sobre o assunto com representantes do mundo inteiro na plateia.

História real: antes de embarcar, procurando em uma das malas de roupas que não uso há tempos (zero desapego), encontrei uma jaqueta de tyvek. Que foi comprada no começo dos 2000, em algum momento em que se tentou fazer ser legal usar roupas de tyvek. Lembra dessa fase?
 
O tal não-tecido, como é sua classificado oficial, é feito de polietileno e foi desenvolvido pela Dupont para roupas de proteção. Descrevendo, parece um milagre: não solta fiapos, não rasga, repele água e protege a pele ao não deixar passar partículas minúsculas, como as que estão sujeitos quem trabalha com materiais perigosos, tipo amianto.
 
Tudo muito bom, mas na moda da vida real o tyvek era um desastre. A dita jaqueta, por exemplo, não protegia no frio e se transformava numa sauna particular durante dias normais - apesar de (reconheço) ser realmente eficiente contra água da chuva. E foi devidamente para o fundo do armário.
 
Pois depois de dez anos guardada, a peça que era branca, está toda encardida. E eu pensei "como diabos vou desamarelar um não-tecido que repele água?".
 
Corta de volta para o seminário milanês, que acontece na próxima quinta-feira (21.11). Apesar de o assunto focar nos tecidos, o seminário quer discutir também como tratar e cuidar dessas tais matérias-primas. É aí que entra a P&G, via sua linha de cuidados - representado no Brasil pela Downy, franquia de amaciastes que vem num esforço para penetrar no mercado de moda.
 
Apesar de tentativa do hype em torno do tyvek, ele não foi o único material a se pensar para dar uma guinada na indústria - que já experimentou todas as formas e comprimentos possíveis e vê em novas matérias-primas uma luz para 1. dar um olé na crise criativa e 2. marketear novas utilidades às peças que já conhecemos bem.
 
A promessa desses novos materiais está no ar há muito tempo, e agora ainda vem sendo abraçada pelo selo da sustentabilidade, assunto do momento (deste e dos próximos). Muita coisa já foi desenvolvida, mas boa parte ainda está restrita à indústria do esporte - que investe pesado atrás de tecidos que melhorem a performance, dêem respiro à pele e maximizem movimentos.
 
A rodada de discussões aqui na Itália é ápice de duas parcerias que a P&G anunciou em outubro. O estilista inglês Giles Deacon foi contratado como diretor criativo do segmento de "fabric care" da empresa, ajudando a servir de link com os fashionistas, enquanto uma parceria com a feira de tecidos Premiére Vision ajuda a trocar figurinhas com a indústria têxtil.
 
Phillipe Pasquet, CEO da feira e insider máximo dessa indústria, é um dos que falam no dia 21, ao lado de Louise Wilson, pensadora e diretora da Central Saint Martins, e Margarita Bahrikeeton, do departamento de pesquisas da P&G. Além do próprio Giles, que desfila uma coleção pocket inspirada nessa sua nova parceria.
 
Parece que vem discussão boa por aí. De bônus, espero que alguém por aqui saiba como lavar a tal jaqueta de tyvek. Pois no final da contas ela está sendo bem útil para enfrentar o sereno gelado que cai sobre Milão nestes fins da tarde. E eu quase cogitei comprar um casaco Margiela do mesmo material. Não é que o hype ainda não morreu?
 

 

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Lou Reed: um ícone e suas horrendas jaquetas de couro

Lou Reed nunca foi exatamente um ícone de moda.

A concorrência na época era dura, a começar pelo amigo David Bowie. Talvez por isso, Reed tenha sempre preferido o figurino do roqueiro clichê. Focava no que sabia fazer melhor - versejando o cocaine chic nos 1970 ou evangelizando pelo tai chi chuan nos 2000 - vestindo quase sempre o básico jeans + camisetas + óculos escuros + jaquetas de couro.

E é nelas que mora o problema (problema?). Morto aos 71, Lou Reed não deixa um legado para as revistas de moda masculina ou grandes acervos de figurino. Quem quiser transformar o músico e poeta em exemplo de estilo, como os cronistas de moda gostamos de fazer, vai ter que suar.

Tudo porque ele não era exatamente símbolo de bom gosto ou de reinvenção de estilo. Tinha um pé no guarda-roupa clássico do homem americano, e encarnava com gosto todas as esquisitices da moda das últimas cinco décadas - como golas rulê, calças bordadas, chapéus jeans, paletós de tecido brilhante...

As jaquetas de couro eram um show à parte. Até chegou a usar algumas peças bonitas e fotografáveis. Mas, na maior parte do tempo, exibia uma coleção de jaquetas de couro preto (sempre), modelagem larga, ombreiras, lapelas gigantes. Todas tão confortáveis quanto feias, com muita personalidade na sua falta de personalidade.

Toda uma vontade para manter uma imagem de gente normal & roupa normal, para não tirar o foco da poesia - amarga, cínica, dark, transgressora -, que era o que importava. Enquanto os punks precisaram rasgar as roupas para ameaçar o sistema, Lou Reed preferiu se rasgar nas palavras.

Para ele, usar preto e couro e óculos escuros não era cool. Não era rocker. Não era “urbano”, como se convencionou dizer por aí, o que até hoje não sei o que significa. Para ele, era apenas nada.

Lou Reed nunca foi um ícone da moda. Ainda bem.

 

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Eu me casaria com Michelli Provensi #ALLTHEMODELSINTHEHOUSE

Michelli Provensi é uma dessas poucas pessoas que surgem nos backstages dos desfiles, de tempos em tempos, para quebrar o padrão.

Tem um senso de humor dévastateur (ela que descreve assim), gosta de futebol, sabe falar, bota banca mas não é tonta, tem carreira mas não tem problemas em falar verdades sobre o mercado. Isso sem falar do maxilar (ah, o maxilar...)

Ou seja, é do tipo pra casar (eu caso, fácil).

Cara de pau como é, Michelli resolveu escrever um livro para falar dos bastidores (os reais) da vida de modelo. E para ajudar a achar uma editora para o livro, produziu um clipe. Mas não um qualquer. Além das participações especiais (das amigas manecas a... Mauricio de Souza) é um vídeo para um RAP (pausa) escrito - e cantado - por ela mesma.

Não é a primeira vez que a moça abre a voz. Já cantou para campanha de Valérie Ciriades e ao vivo, em dueto com Thiago Pethit. Mas um rap é um rap é um rap.

Dali de All The Models in the House vem o papo reto do mercado, segundo MC Michi. "Pra mim Nova York é que nem ir ao Jabaquara", "Falo que desfilo bem, mas não sei falar / Baixa guarda aê plateia, não pude estudar" e "Então tá, vc quer ser manequim / Olha bem pra minha lordose, olha bem pra mim", são minhas favoritas.

Nesse meio tempo, o livro arrumou casa (sai pela Editora da Boa Prosa, durante o SPFW), mas o clipe continuou - assista ali embaixo, com direito a letra para acompanhar a dancinha e fazer coro.

Da última vez que cruzei com Michi no backstage, ela estava brigando (com razão) pela falta de comida para as modelos nas horas antes do desfile. Tipo mãezona desbocada, saiu falando algo como "quero brigar com alguém da marca, pra deixar bem constrangido". Tá certa, não tá?

Alface na garganta dos outros é refresco.


 

ANDAM DIZENDO POR AI QUE CHUPO GELO E COMO ALFACE
SOU RICA GLAMUROSA E MINHA PROFISSAO E CLASSE
ENTAO TA VC QUER SER MANEQUIM
OLHA BEM PRA MINHA LORDOSE OLHA BEM PRA MIM
PENSA QUE E MOLEZA SENTA NO PUDIM
PRA TAR NA CAPA DA REVISTA TEM QUE ROLAR SIM
TEM QUE TA MAGRA PRA ENTRAR NO SKINNY JEANS
E SE O QUADRIL NAO FOR 90 IIII DISAQUENDA

VAMO BORA
DRENAGEM PILATES E PERNA DE PALMITO
CORRE NAO QUE ENGROSSA A COXA O BOM MESMO E TER GAMBITO
MODA SE RECICLA E VOCE TAMBEM
ATE ONTEM ERA FEIA HOJE SOU BOLA DA VEZ
FILA DO CASTING E GRANDE TEM QUE TER PACIENCIA
CINQUENTA NAOS UM SIM TALVEZ E SE VOCE TIVER CHANCE
BORA MODELADA VAMOS ESTUDAR
SE NAO SABE O QUE TE AGUARDA O QUE O FUTURO VAI TE DAR
NAO ADIANTA SER BONITA E TER A CABEÇA VAZIA
BELEZA VAI EMBORA SABEDORIA FICA

REFRAO

ALL THE MODELS IN THE HOUSE ALL THE MODELS IN THE HOUSE REPRESENTING
WE WANNA BE LIKE GISELE REALLITY SOMETHING ELSE
PRETENDING

OI MAGRAL SOU MODELO COMERCIAL
SOU RICA E BONITA E NAO COMO NADA MAL
ENQUANTO SE FAZ 10 DESFILES GANHO O MESMO NUM DIA
VENDENSO SHAMPOO A CERVEJA NAO SOU FAMOSA MAS TO BEM NA FITA
TENHO DOIS APARTAMENTOS E UM CARRO POPULAR
GANHO CANTADA NA PRAIA E O BOFE VAI ME BUSCAR
NA ACADEMIA OU NO SHOPPING ONDE PASSO MEU DIA
QUER UM CONSELHO?
PEDE A DEUS PRA EM OUTRA VIDA NASCER MENOS ESQUISITA

REFRAO

MEU CACHE TA ATRASADO
SAPATO APERTADO
O QUE NAO FALTA E GENTE AI PRA ME SUBESTIMAR
FALO QUE DESFILO BEM MAS NAO SEI FALAR
BAIXA GUARDA AE PLATEIA NAO PUDE ESTUDAR

PRA MIM NOVA IORQUE E QUE NEM IR AO JABAQUARA
LONDRES TOQUIO E MILAO E NA ESQUINA DA MINHA CASA
QUER ME VER FELIZ SOLTA UM MAPA NA MINHA MAO
MOREI NESTES LUGARES NAO SOU TURISTA NAO
SE ESTUDA TRABALHA PRA PODER VIAJAR
VIAJO TRABALHO PARA UM DIA ESTUDAR
MEU PASSAPORTE ESTA CHEIO
PARIS E MEU QUINTAL
MAS A SAUDADE DE CASA AINDA ME DEIXA MUITO MAL
ESTA E A CHANCE QUE TIVE
ESCOLHA FOI MINHA
DESCULPA PROFESSORA MINHA ESCOLA
E PASSARELA DA VIDA
 

 

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