Les Chics

ONG lança app que acompanha casos de trabalho escravo na moda brasileira, mas consulta pede muita moderação

Assunto dos mais sérios, o uso de trabalho escravo na cadeia das confecções vem se tornando discussão recorrente na indústria da moda. Vários foram os casos divulgados pelos jornais nos últimos anos, envolvendo marcas locais ou grupos internacionais - principalmente desde o lançamento do Pacto Contra a Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo, assinado em 2009.

Mas apesar das discussões inflamadas via Facebook, poucos realmente se interessam pelo assunto ao ponto de transformá-los em um banco de dados atualizado. Daí que empresas acabam ganhando fama eterna de escravagista diante do público consumidor, mesmo depois de tomadas medidas sobre o assunto.

Pois uma das ONGs mais interessadas no assunto colocou na rede um aplicativo para celular que se propõe a acompanhar de perto esses casos - e orientar os consumidores na hora de fazer uma compra consciente. O Moda Livre, lançado nesta quarta-feira (11.12), é projeto da Repórter Brasil, coletivo de jornalistas, educadores e cientistas sociais coordenada por Leonardo Sakamoto.

Sakamoto é fonte-referência na discussão de trabalho escravo, direitos humanos e produção consciente - não necessariamente na indústria têxtil - e, não à toa, é um dos blogueiros mais compartilhados pelas redes sociais. Ao mesmo tempo, o site da ONG é uma das melhores e mais ferrenhas coberturas sobre o assunto dos "grilhões ocultos da elite brasileira", como dizem. Um trabalho respeitável.

Inicialmente bem-intencionado, o aplicativo é ideia interessante para consolidar um volume monumental de informações desencontradas. Para o lançamento, a equipe da Repórter Brasil elencou os dez mais da lista dos maiores varejistas do mercado e incluiu os principais casos flagrados pelo Ministério Público nos últimos anos.

Daí chegaram a um "top 22" que inclui os gigantes varejistas (Renner, Riachuelo, C&A) e as empresas do grupo Restoque  (Le Lis Blanc, Bo.Bô, John John), até a Zara (flagrado em 2011) e micromarcas como a Talita Kume, do Bom Retiro.

Cada empresa aparece no app, para consulta pública, sob um ranking de três posições - verde, vermelho e amarelo -, obtido via pontuação a partir da análise da situação da empresa perante a Justiça e um questionário enviado pela ONG.

Atualmente, a C&A é a única que ganha "sinal verde", por nunca ter sido autuada e manter sistema transparente sobre o assunto. Por outro lado a 775 ganha vermelho por não revelar aos clientes e à mídia se mantém trabalho escravo (depois de flagra em 2010) e quais providências toma sobre o assunto.

Mas, do jeito que é construído, o app pede muita moderação na consulta por conta dos critérios de avaliação do grupo. Tudo por que as empresas que não responderam ao questionário criado pela ONG - seja por falta de prazo, falta de interesse ou qualquer outro motivo - são jogadas na mesma vala das marcas infratoras.

Essa falta de filtro coloca, na mesma categoria, empresas sólidas como a Hering e nomes autuados como a rede Collins, aparentemente sem que a primeira tenha nada que a desabone. Se essa diferença é clara para quem acompanha de perto esses assuntos, acaba se tornando uma armadilha para a massa que não vai clicar para ler as letras miúdas do aplicativo.

Em tempos de demonização fácil pelo Facebook e reputações devoradas pela Internet, vale um pé atrás no aguardo do 2.0.