Moda

À La Garçonne . verão 2017

No mezanino do subsolo do Masp, acima de uma seleção de acervo de obras de Portinari, a À La Garçonne lascou uma trilha sonora de divas que exemplifica muito o momento atual do desejo da moda em que a marca - sob a mão de Alexandre Herchcovitch - quer trabalhar.

De Donna Summer a Lady Gaga, o mix de Max Blum desencontrava trechos de superhits à capella - sem grandes interferências, bases ou tratamentos. O foco era no refrão que todo mundo sabe cantar, na voz que todo mundo reconhece: o core do core. O emocional óbvio da música pop, pra além do millenial woop.

É aí que entra Herchcovitch, jogando para cima na segunda coleção da ALG (sigla devidamente oficializada nas jaquetas de couro da vez). Se na temporada passada ainda havia a história da sua "aposentadoria" assombrando a estreia da nova etiqueta, aqui a poeira se assentou - aquilo já está bem longe e a nova casa mostra sua cara com mais afinco.

Espertamente, se colocam ainda mais no cenário do "streetwear ultradesejável de luxo" que tem foco nas peças e no mood de um universo. A vontade da moda do momento, em que todo mundo quer/precisa repensar modos de venda e signos de produção, sustentabilidade versus velocidade, é exatamente esse. É uma vontade legítima, mais por produtos e menos por (ins)pirações.

Daí que uma etiqueta micro como esta se dá bem. Produz aos poucos, economiza na estrutura e ainda se sintoniza nas parcerias para (reinventando o prêt-à-porter?) espalhar seu mood - daí que as camisetas são Hering, a alfaiataria está nas mãos da Colombo (!, numa entrada surpresa em um universo ao qual nunca pertenceu), os tênis são da Converse... e a história segue.

Do ateliê, Alexandre segue o mesmo caminho e vai, assim como a trilha, no core do core. Bate bem nos seus novos clássicos - as jaquetas pintadas à mão, as calças cropped - e suas marcas registradas de sempre, de uma feminilidade que trocou o sexo pela rua.

É produto que o povo quer, então é produto o que ele entrega: mistura neoprene com renda em vestidos neofetichistas (mas sem se ater tanto à sua fase anterior), modela transparências com listras e volta a apresentar a alfaiataria masculina que andava fazendo falta. A influência do varsity 1990 e os camisolões transparentes não demoram a virar hit da coleção que começa a chegar às lojas amanhã.

Na onda do "see now buy now", o comportamento agora é como na antiga alta-costura: as clientes ficam na primeira fila, anotando na cartelinha os produtos que já querem encomendar.

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