Moda

Lab . verão 2017

Empoderamento é, de longe, a palavra do momento em 2016. Num movimento de redescoberta social para além das fotos de gatinho no Facebook, todos os guetos e minorias se aproveitam da repercussão das redes sociais para tentar levar sua luta para além da bolha, atrás de respeito e igualdade - gordos, gays, negros, trans, feministas, a lista é plural e infinita.

É tão palavra do momento que foi já incorporada (claro) pelos departamentos de marketing e campanhas, capas de revista e todo o mercado consumidor. Todos atrás de um naco do dinheiro desses grupos, num movimento que (claro) acaba esvaziando qualquer discurso. Há quem diga que é de propósito (opressão!), há quem diga que é o curso natural do capital. 

Em comparação com esse momento, as passarelas das semanas de moda mainstream nunca foram lugares legitimamente abertos à discussão e inclusão social - servindo, pelo contrário, e é essa a birra dos que lutam pela inclusão, para reforçar padrões e comportamentos de gêneros dominantes. Seja do branco, do “bonito”, do magro, da selfie, da unha bem feita.

É ainda mais interessante, então, observar enquanto o tal empoderamento ainda não foi deglutido pelo mercado. Ou ainda melhor: quando se aproveita do mercado para bater de frente com o próprio.

Esse pensamento de “anarquia através do capital” é o que move a estreia da Lab, marca capitaneada pelo rapper Emicida e seu irmão/parça Fióti. Diminutivo atraente de Laboratório Fantasma, a etiqueta é evolução de um business que surgiu pela necessidade da carreira musical da dupla: um selo que lançava discos e passou a cuidar da banquinha do merchandising nos shows, que agora vai ainda além das camisetas temáticas.

Apesar de pop, Emicida é um tipo respeitável que transita da quebrada aos Jardins sem nada que o desabone. Seu discurso soa legítimo, sua defesa das raízes africanas não é modinha, a causa é fiel ao público - que não foi trocado por um deslumbre da classe alta que já atingiu tantos antes dele. O mano é tru.

É com essa força que ele abriu seu desfile para, palavras dele, encher a passarela de pretos: “fiz com a passarela o que eles fez com a cadeia”, mandou. O resultado foi uma invasão muito bem vinda da favela - num momento em que a moda precisa tanto das ruas pra se legitimar, ele mostra que as ruas não têm tanta necessidade assim da moda pra viver.

Com auxílio certeiro de João Pimenta na direção de estilo, a primeira coleção da Lab mistura então as ideias das causas da trupe Emicida com modernidades do streetwear que estão no ar: os moletons oversized, o preto&branco, os grafismos e as misturas de shape no styling. Nada fancy: tudo na base do moletom, sarja, algodão - a ideia da coleção, que já está à venda, é ser acessível para o público-base do homem.

As estampas foram retrabalhadas pela equipe com base em tecidos africanos de acervo - reduzidas e repetidas, transformadas em gráficos com cara daquele continente, porém minimalistas. Outros códigos aparecem por ali, como os hoodies com bandana acoplada, relendo para a passarela um símbolo clássico da resistência da periferia contra a imagem do “mano de capuz”. É o direito do cidadão de esconder o rosto, mesmo sabendo que vai tomar um enquadro na esquina seguinte por isso.

O casting também foi um tapa necessário no público fashionista (e no SPFW em si), trazendo para a passarela uma diversidade humana de modelos, pretos do clã hip hop, celebridades (tipo Seu Jorge e Ellen Oléria)  e plus size. Gente normal na passarela, por supuesto. É o tipo de representatividade que se espera que se torne natural. Não é uma questão de forçar a barra, é uma questão de existir.

Recado dado, braços cruzados, Emicida comandou com louvor a invasão da passarela no fashion week. Mas sem preconceitos: por mais que pose de cara fechada, a linha é agregadora e o rapper (afinal, é do mercado) conclama todo mundo a participar do seu universo e dos seus shows.

Agora é hora de ver quanto o discurso resiste à habitual absorção desse empoderamento pelo mainstream. Uma hora a favela vai ser gourmetizada, e não se pode negar que com esse desfile o rapper deu um passo a mais nessa direção.

Quando a blogueira loira, que não sabe nada da vida, aparecer vestindo camiseta “I love quebrada”, será união de esforços ou roubo de lugar de fala?

Torçamos para que a história dure - e do jeito legítimo como deve e merece ser. Poder para isso eles têm.

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