Moda

Ronaldo Fraga . alto-verão 2017

Há algum tempo, em uma mesa redonda com estudantes, estive dentro de um bate-boca com uma transexual sobre como a indústria (e, principalmente, a imprensa) da moda não tratava mais Lea T com atenção especial. Já passara o impacto da sua chegada e a estranheza da sua presença na passarela: Lea estava mais do que absorvida no cenário.

Mas a amiga debatedora dizia que, de certa forma, Lea merecia alguma espécie de “cota” em defesa da sua transexualidade. Que isso ajudaria a causa. E eu contra-argumentei dizendo que, oras, Lea ganhava muito mais respeito quando era tratada apenas como “modelo” e não “a modelo trans”.

Que o aposto só ajudava a mantê-la no gueto das exóticas, no mundo dos casamentos gays, beijos lésbicos, miss brasil negra - tudo pretensamente fora de uma tal “normalidade” imposta. E que suprimir o “trans” ali era sinal de consideração máxima a Lea e todas as trans que viriam depois dela, transformando-as em um “novo normal”. E muitas vieram.

Hoje, vivemos um momento em que alguém como Valentina Sampaio desponta como a modelo de maior destaque desta edição de SPFW. Mas não ganha destaque por ser trans, e sim por ser… uma excelente modelo. Isso não quer dizer, porém, que Valentina teve que se camuflar entre as mulheres para brilhar. Mas sim que a sua condição é tão somente uma característica da sua realidade.

Claro que a passarela é ainda utopia de uma pequena bolha. E essa realidade é cruel: para cada Valentina, milhares de anônimas são assassinadas, discriminadas e violentadas Brasil afora, colocando o país no topo amargo do ranking dos países que mais matam transexuais.

Pouquíssimo se faz para mudar esse cenário. Daí que a amiga da discussão não estava de todo errada ao gritar por visibilidade, então, na figura isolada da sua ídola dentro do mundinho da moda. Anos depois, ela deve estar feliz ao ver o que Ronaldo Fraga aprontou para esta temporada de trans-ição do SPFW.

Ronaldo é um que é bom em poetizar em cima da figura dos desgraçados. Seja os da seca do sertão, os mal-amados, os românticos, os gracilianos, os presidiários e qualquer categoria que seja de ser humano, o mineiro arma seu espetáculo transitando com delicadeza nos problemas que atingem seus personagens.

Desta vez, olhou com amor para a figura da trans, espertamente sintonizado a uma urgência por representatividade na moda e no mundo real, contra um endurecimento religioso direitista que vem na direção contrária. E tomou o Teatro São Pedro, no centro de São Paulo, para abraçar a causa de surpresa - sem abrir o backstage, sem avisar, sem estardalhaço prévio, trazendo a transfobia para o holofote.

Diante de um público boquiaberto, Ronaldo abriu mão de pensar em uma nova coleção. “A história deste desfile não está na roupa”, disse ele em manifesto antes de abrir as cortinas do teatro centenário. “Está em quem as veste”.

Entra em cena então um batalhão de meninas trans - 28 delas, pinçadas por São Paulo e pelo Brasil pela diretora do desfile Roberta Marzolla -, pisando firme no palco e invadindo a plateia para fazer o percurso em uma passarela no chão do teatro.

As roupas, realmente, não eram o assunto. Todas usavam vestidos de modelagens semelhantes, com apliques aqui de tule aqui e ali e sem grandes adornos como brilhos ou bordados. Dando graça, ilustrações feita a canetinha por Ronaldo, fazendo desenhos e volumes e babados, meio trompe-l'œil fazendo referências a corsets e modelos dos anos 1920.

A carinha de vestido de boneca não era de graça. O estilista romantiza neles o momento da primeira memória de todas elas, da graça que foi vestir o primeiro salto, a libertação da primeira roupa feminina sobre o corpo ainda masculinizado. Como se olhando de fora, essa sagração da alma feminina acontecesse como bonecas vestido-se a si mesmas com um guarda-roupas ideal.

A poética (e a política) do desfile vai se construindo aos poucos, na entrada de cada uma das bonitas. Na contramão das modelos padrão, que são pagas para deixar suas personalidades no backstage, a história aqui tem carga dramática que usa a moda para contar seu enredo.

E os vestidos neutros e retos, quase sem graça, vão ganhando corpo literalmente junto com as meninas. Nas curvas das ancas, nas coxas poderosas, nos seios - que às vezes vêm, as vezes não têm - nos braços finos porém firmes, nos narizes redesenhados. Todas num eterno processo de readequação de figura para se encaixar em como elas se vêem por dentro.

Complicado ficar impassível diante de tanta realidade passando, com tanta história das ruas representada por elas na sua frente. Ronaldo merece um abraço por construir um espetáculo desses com delicadeza e sem caricaturice, puxando para si um discurso tão importante em uma temporada em que a empatia se faz necessária.

E a elas, todo o amor do mundo. Torcendo para que, nesse caso, a moda realmente cumpra seu papel de adiantadora de novas realidades.

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